O Preço do Silêncio: Por que a "Verdade" nos Autos não basta mais?
- Contemporâneo

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"A luz do sol é considerada o melhor dos desinfetantes" (Sunlight is said to be the best of disinfectants) — a frase do juiz Louis Brandeis nunca foi tão atual. No tribunal da opinião pública, o veredito costuma ser proferido muito antes da primeira audiência judicial. Em uma era definida pela velocidade da informação e pela onipresença digital, a antiga estratégia da "clausura" — o silêncio obsequioso aconselhado por advogados conservadores — tornou-se, não raro, uma sentença de morte para a reputação das marcas.
A sobrevivência institucional hoje não permite hesitações: ela depende de um equilíbrio técnico entre o rigor do Direito e a agilidade da Comunicação. Onde o advogado tradicional recomendava o silêncio, o estrategista moderno enxerga uma janela de exposição de riscos.
No cenário atual, a "verdade jurídica" (aquela que consta nos autos) precisa caminhar em absoluta sincronia com a "verdade percebida" (aquela que o público consome). Ignorar essa balança é aceitar uma insolvência reputacional: vencer a demanda judicial enquanto o valor de mercado e a confiança do consumidor são dizimados por uma narrativa sem contraponto.
A gestão de crise eficiente não busca apenas a absolvição legal; ela trabalha para garantir a continuidade dos negócios através da transparência guiada. Historicamente, vimos uma relação de desconfiança mútua entre o advogado, zeloso pelo sigilo processual, e o jornalista organizacional, pressionado pela necessidade de fornecer respostas imediatas aos stakeholders.
No entanto, essa dicotomia é hoje anacrônica. Em tempos de crise, a transparência deixa de ser uma escolha ética para se tornar um imperativo de governança. Quando essa luz é projetada por mãos preparadas para transitar entre as redações e os tribunais, a organização não apenas sobrevive ao escrutínio, mas reafirma sua integridade.
O Caso Danone: Quando a Ética se Torna Ativo Financeiro
A recente crise envolvendo a Danone e sua cadeia de suprimentos de soja ilustra bem essa mudança de paradigma. Não se tratou apenas de uma questão de conformidade ambiental, mas de um embate sobre a percepção de integridade. Enquanto o corpo jurídico analisava os contratos e as normas de ESG (Environmental, Social, and Governance), a comunicação traduzia esse cumprimento normativo em valores éticos para o mercado internacional. O caso demonstra que a "verdade jurídica" não basta se não for comunicada com empatia e clareza. O mercado não pune apenas o erro; ele pune a opacidade.
A Anatomia da Resposta: Boeing e Samsung
A comparação entre gigantes da tecnologia e aviação oferece uma lição profunda sobre o custo do silêncio. Enquanto a Samsung, no caso do Galaxy Note 7, adotou a "Assunção Responsável" — assumindo o erro técnico de forma célere para estancar o sangramento reputacional —, a Boeing, no episódio do 737 MAX, parece ter se perdido no labirinto das defesas herméticas. O resultado para a Boeing foi um vácuo informativo preenchido por desconfiança, custando bilhões de dólares e a fé do consumidor na segurança de seus produtos.
Essa discrepância revela que, em uma crise, a organização enfrenta dois tribunais distintos. No Judiciário, vigora o princípio de que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. No entanto, no tribunal da opinião pública, a ausência de resposta imediata é lida como negligência ou dolo. Ao priorizar uma blindagem jurídica que ignorava o clamor social, a Boeing sofreu uma "condenação antecipada" que o Direito, sozinho, não foi capaz de reverter.
O Equilíbrio Necessário
A responsabilidade civil e a transparência jornalística não são excludentes, mas complementares. Quando o jurídico valida uma admissão de culpa pontual, ele não está apenas municiando litígios; ele está mitigando o valor de indenizações futuras ao demonstrar boa-fé. Na economia da reputação, o custo do capital está diretamente ligado à percepção de integridade. Uma organização que se ancora exclusivamente em manobras processuais corre o risco de obter uma vitória meramente formal enquanto sua viabilidade comercial e a lealdade do consumidor são dizimadas.
A Governança do Amanhã
A integração estratégica através de Comitês de Crise e o treinamento de porta-vozes (Media Training) são hoje protocolos de sobrevivência. O advogado moderno precisa entender de percepção de imagem, e o jornalista precisa entender de riscos legais. Gerir uma crise é um exercício de humildade institucional. Significa admitir que, acima da razão legal, existe o pacto de confiança com a sociedade.
Em um ambiente em que boatos se propagam em segundos e processos se arrastam por anos, a omissão deixou de ser proteção para se tornar risco operacional. Cabe às organizações substituir o reflexo do silêncio pela disciplina da transparência planejada: criar comitês de crise permanentes, alinhar previamente jurídico e comunicação e treinar porta-vozes para falar com clareza, empatia e responsabilidade. Ao assumir erros de forma tempestiva, explicar correções com dados verificáveis e manter canais abertos com a sociedade, a empresa não apenas atravessa a tempestade reputacional, mas converte vulnerabilidade em prova pública de integridade.
Para o mercado e investidores, a capacidade de assumir responsabilidades de forma transparente é um indicador de maturidade institucional. A transparência não é mais apenas uma opção humanitária, mas o mais eficaz mecanismo de sanitização institucional em cenários de alta volatilidade. Contudo, essa abertura exige uma curadoria técnica rigorosa, capaz de harmonizar o dever de accountability com as salvaguardas da estratégia jurídica. Afinal, a luz que dissipa as sombras da crise só cumpre seu papel quando guiada por uma governança integrada.
Referências:
FORNI, João José. Gestão de Crises e Comunicação: O que as empresas e instituições precisam saber para enfrentar crises e emergências. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2024
NEVES, Roberto de Castro. Crises empresariais com a opinião pública. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
📷Flickr. O Semeador, de Vincent Van Gogh. A luz solar expansiva da obra ilustra a transparência como o "desinfetante" necessário para a integridade institucional.



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